terça-feira, 8 de novembro de 2016

Mormaço.

Se olhou triste. Sabe aqueles dias que você se pega pensando em coisas que talvez não sejam realmente relevante, dias que deveriam ser esquecidos. Inconscientemente sacou seu celular, sentado no ônibus, olhou para o mesmo por um certo tempo. Parecia que algo o atingirá.

Alguns instantes depois voltou a si e se lembrou do que pretendia fazer - abrir o Spotify, claro. Tivera uma noite conturbada de ideia e uma sensação de desmoronamento. Tais sentimentos somente lhe vieram a mente quando notou que seus olhos vagos correram a lista de músicas que subia a sua frente e, sem notar, escolheu uma.

Já ouviu  falar de Hozier? Conhecer o trabalho desse cantor irlandês foi um acaso - assim como outros diversos acasos que mudaram sua vida, mas não vou falar sobre isso hoje. No meio de um milhão de páginas visualizadas na internet, um dia, sem querer, caiu no clipe de Take Me To The Church. Com certeza foi a coisa mais triste que já houvera assistido na vida. Foram alguns minutos, talvez três ou quatro, que mudaram sua vida. Seria modesto ao tentar dizer que o choro fora muito.

— Não é estranho quando há algo te toca tão profundamente que você se quer consegue expressar o poder empregado em você sobre tal obra? - indagou-se em um ar que posso descrever, no mínimo, como sarcástico.

Escolher essa música no meio de tantas outras em seu celular mudou sua noite. Pensar que seus problemas são tão pequenos comparados  aos que milhares de pessoas passam nesse mundo o acalentou. Como o abraço da mulher amada, tão cobiçado em um dia de calor. No final... Só ardeu.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Vestido.

De surpresa, me dei de frente com aquela foto. Foram anos e anos tentando escondê-la de meus dados olhos.

Lembro do dia que ela foi tirada. Há cerca de dez anos atrás, quando ainda estamos só duas crianças fingindo saber que subíamos o que de fato queríamos para nós. Era simples, honesto, palpável...

Talvez nunca tenhamos sidos bons em nos comunicar, né? Risos. Desde a primeira desavença, meu orgulho se mostrou forte e intransponível, sua raiva algo surreal - hoje entendo. Mas o que me fascina é como aconteceu o decorrer de todo o resto. Havia um carinho, uma saudade, um respeito mútuo. Eu, sempre por aí, dizia a terceiros que não passava de uma bobeira de duas crianças. Mas todo mundo sabe que isso foi uma forma de tentar reprimir algo que, na minha cabeça, era inatingível. Você, que também nunca foi um exemplo, passeava pelas ruas acompanhada, mas bem sei que na verdade sonhava em estar ali comigo - tenho ótimas informantes haha.

Até tentei. Juro que tentei.

Me lembro de quando virou rotina te ver por aí. Foram tempos difíceis. Tinha palpitações, receios e fortes desejos que você mostrou serem algo que jamais viria a acontecer.

Era ruim, mas era bom também. Não vou negar. Mas o que mais me abalou, foi quando descobri que não poderia fazer mais nada. Havia se mudado para um iglú... No meu peito fazia frio feito o que devia fazer fora da sua casa. Então decidi esquecer, reprimi, quase me matei - sim, eu gosto de exageros. Até te escrevi umas músicas que você nunca vai ouvir.

E agora, há mais ou menos dois anos depois disso, descubro que voltou para as terras tropicais.

Te vejo, de manhã, logo quando o sol cerrava meus olhos ainda marejados pelo sono. Foi como ver uma foto, sabe? Aquela foto que temos no fundo da gaveta, já amarelada pelo tempo. Um abraço apertado, duas ou três palavras, sem graça por não entender direito o que deveria fazer - você me pegou de surpresa mesmo - e um adeus... Não para você, continuo te desejando tudo que há de melhor nesse mundo, mas para aqui que eu não sabia direito o que era.

O que um dia chamei de dor, hoje vejo que posso nomear de maldade; o que achava que era amor, acho que tenha sido mesmo e hoje só restou o que poderia se chamar de amizade; e o que talvez um dia vi como rancor, hoje já não passa de saudade... e um carinho que jamais vou poder apagar.

Desbotou, não como um vestido velho que está estragado por ter perdido sua cor, mas porque só passou de seu tempo e hoje está guardado com carinho e saudosismo. Como uma lembrança de um dia que usávamos de nossa inocência para nos vestir.

Com carinho.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Gaivotas.

E se eu lhes falar que o vento tinha histórias pra contar? Vão negar que a gente tinha rumos pra guiar no fim de cada esquina.

Sei, vai lembrar, que os dias foram longos para ti e recuar ao perceber que estive sempre aqui com pedaços do que foi o nosso fim. Bem aqui, bem.

Vai dizer que quando olhas ao céu já não vê as gaivotas que vinham do mar? E a tarde que brotava em tons de azul? Foi você quem fugiu do caminho a ser o futuro que nos levaria pro véu de nuvens e o terno.

Tempos depois eu me arrependi ao ver essas mágoas ainda aqui, talvez, não por mal, veio se despedir — Não somos um.
E eu já não sei mais por onde seguir, carrego o peso de um dia mentir pra mim mesmo enquanto ouvia aquele blues.

E até os meus amigos, seus amigos, disseram para mim que as vezes há perigo ao se olhar pra trás. Sei que sou bandido, já ferido e carrego a culpa em mim, mas tudo acaba quando terminou.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Sobre tática de guerra e algumas outras coisas.

Crescemos em um mundo lindo e cheio de promessas - ao menos, boa parte dos que conheço. Desde pequeno, nossos pais dizem que seremos alguém na vida, teremos um bom emprego, ótimos cônjuges… O que normalmente esquecem de nos contar é o que a vida não é tão bela depois que alcançamos uma certa idade.

Chega um momento onde é cada um por si.

Temos de estudar, trabalhar, nos dedicar aos nossos interesses - as vezes ao que não é de nosso interesse também. É aí que entra uma parte importante e boa no nosso percurso: formar alianças.

Uma andorinha só não faz verão - ainda bem - , e se fizesse teríamos espalhados por aí diversos exemplares de pessoas arrogantes, prepotentes, “auto suficientes” - e ainda assim, posso apontar alguns desse tipo. Não importa qual seja o objetivo e a quem atribuímos esse dever. Seja para ter uma companhia nas horas vagas, alguém que te dê carinho quando precisar, um contato que vai fazer você expandir seus horizontes profissionais… toda relação tem um ponto de interesse. E novamente os nossos pais - lembram deles? - acabam por não nos mostrar na pele o que é o sentimento de decepção.

Sempre achei que acumulei por aí diversas alianças, mas com o passar dos anos noto então que na verdade esteja quase sozinho.

Talvez seja culpa do meu signo, que do sagitário só aflorei a parte de cavalo - curiosidade: meu signo chinês também é cavalo haha. Mas agora, que estou prestes a completar vinte e cinco primaveras, que noto o quanto estive enganado.

A confiança e a fidelidade são sentimentos que levamos meses, muitas vezes anos, até conquistarmos ou deixar que conquistem em nós, mas o sentimento decepção é a maior arma nessa guerra. Fazendo uma analogia tosca, imaginem que a confiança é Napoleão Bonaparte e podemos chamar a fidelidade de Adolf Hitler. Ambos poderosos, fortes o suficiente e confiantes de que durariam para sempre… até o momento que decidiram invadir a mãe Rússia em pleno inverno. Pois é… o inverno russo aqui representa a decepção. Não importa qual seu tamanho, quantos homens e mulheres apoiam sua causa, quantos cavalos e espadas ou soldados munidos de armas altamente letais. A o frio do inverno russo - ou da decepção - vai aniquilar suas tropas, assim como hoje fez com Napoleão (confiança) e Hitler (fidelidade).

Nenhum soldado seu suportará o frio que chega a congelar vossos corações.

Aos mortos e feridos.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Um ensaio sobre a cegueira.

Dias melhores virão - dizem isso por aí, mas o que esquecem de dizer é que os ruins costumam vir com mais frequência.

A vida veio me pregando peças no decorrer deste ano. Sozinho, vagava a esmo de esquina a esquina procurado algo pra me distrair; o que ontem considerei um a profissão, havia se tornado um peso em minha vida; até mesmo meu maior sonho, junto de pessoas que depositei tanta esperança, pegou carona na última nave enviada a Marte para confirmar a existência de água líquida no planeta vermelho - (risada irônica). A sensação de impotência prevaleceu.

Aos poucos, fui ajeitando a casa. Limpei as janelas, varri o chão empoeirado, vedei as goteiras... Até pendurei bebedouros para os beija-flores. Não porque isso me acalma ou porque talvez goste de ver tudo arrumado.

Agora tinha visita.

Acredito muito no poder do pensamento. Aquele lance meio esotérico, meio estranho, meio bossa nova, meio rock n' roll - haha. Creio piamente que o que plantamos será exatamente o que colhemos e - meio que sem ver - me vi semeando meu jardim com coisas boas. Começou com uma bobeira, um sábado qualquer, que virou meus planos de cabeça para baixo.

A fim de curiosidade: na religião hebraica, o sétimo dia do Gênesis, é chamado de Shabat (שבת). Nesse dia, os adeptos ao judaísmo tiram um dia de 'descanso', onde se dedicam ao estudo e melhoramento do seu ego - meio leigo e talvez brevemente equivocado, mas foi o que entendi após uma breve explicação que recebi de um judeu.

Pensando assim, mal sabia eu que naquele sábado minha vida começaria a mudar de rumo.

Com o ambiente ajeitado, tornei a abrir as portas e as janelas pra te ouvir cantar e o que achei que seria só uma curta visita, se tornou uma constante agradável.

Veio pra perto de mim e me confortou. Me mostrou o lado bom de coisa que só enxergava escuridão e me deu forças pra seguir com o que tanto já amei até hoje.

Impressionantemente, a nova onda de bons pensamentos deixaram de ser só pensamentos e começaram a mudar o rumo das coisas ao meu redor - até consegui um emprego promissor na minha carreira.

Sei que esta longe do final do ano e bem longe de onde meus planos vão para o meu futuro ao lado da minha constante, mas acho que já posso começar a agradecer - não?

Dizem por aí que o amor é cego e não sei se sou do tipo que concorda - talvez até seja. O que sei, de verdade, é que essa cegueira me fez enxergar o lado bom da vida.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Longo prazo.

Há anos venho procurando um bom lugar para dedicar meu tempo e dinheiro. Confesso que ao ver algumas propostas meus olhos brilharam, mas depois de certo tempo só restou estrada, pó e eles marejados. Com o passar dos anos comecei a aceitar a seguinte situação: vou terminar pobre - o famoso aceita que dói menos - e, enfim, a vida foi seguindo.

Até que chegou um momento onde me vi de fato aceitando tudo isso. Só queria saber de sair por ai, gastar meu dinheiro a esmo, dedicar meu tempo às coisas banais, procrastinar e profanar a dedicação alheia aos seus sacrifícios para arrecadas fundos e investi-los em algo maior - confesso que soa meio estranho ler isso sobre mim mesmo.

Bom, após meses nessa vida louca, enfim chegou o inverno. Gosto do inverno, sabe? Para mim, é uma época ótima para dedicar seu tempo a você mesmo. A meta: me enfiar em casa, tocar e compor o maior número de novas canções possíveis. Como nada na minha vida faz sentido, um dia decidi me arriscar ao sair em uma noite fria para tomar pints e mais pints de cerveja estupidamente geladas. Sabia que seria uma 'aventura'.

Um olhar fuzilante ao me receber e uma certa distância de uns dois palmos ao sentarmos na mesa, mas nada que algumas horas de boa conversa não fizessem mudar tudo. Sai para tomar cerveja gelada, mas voltei pra casa com o coração quente - você não sabe, mas te apelidei de camomila (te explico uma hora dessa) - e, por incrível que pareça, sentindo falta de algo. Talvez tenha sido teu sorriso sempre aceso ou o fato de que com o tempo você se aproximou e me esquentou do frio que vinha da janela ou a graça de como me interessam o seus desejos mais banais - como, por exemplo, a forma que se encanta com a ideia uma cama... elástica ou não.

Sabe quando você perde o rumo das coisas? Quando tudo que estava meticulosamente planejado sai do controle e vira de ponta cabeça? Sabe quando nada faz sentido? Pois então... falando em coisas que não têm sentido: aposto que você não reparou, mas sabe essa música que está tocando enquanto você lê esse texto? É uma música de uma banda que gosto muito - aquela que você criticou no primeiro dia que nos vimos, lembra? - e nela ele diz: Não me pare agora, porque eu estou me divertindo. E sou bom em fazer as coisas não fazerem sentido então vou continuar... Queria te dizer que pensei bastante sobre tudo isso e algumas coisas mais e cheguei a uma conclusão: espero que você tenha vindo para ficar. Como já te disse, gosto de dar nomes as coisas, mas acho que não preciso deixar uma pergunta explícita aqui... é só você me olhar agora e falar que sim ou que não - por favor, não diga não porque seria foda.

Ps: Ela disse sim

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Um abraço ao acaso.

Sabe aquele tchau com gosto de quando vou te ver de novo? É engraçado. Me peguei ontem, por aí, rindo - na verdade sorrindo - pro acaso. Por mais que já tenha falado sobre ele, nessas idas e vindas do meu coração, fiquei espantado do quão esse meu antigo inimigo hoje tenha se tornado um aliado.
A gente põe muito peso nos acontecimentos, sabe? Uma dramaticidade um tanto quanto grandiosa nas coisas que na verdade são só vontades internas e não correspondidas. Já por outro lado, o acaso chega cheio de si e te mostra com uma nova ótica novos campos que você jamais sonhou alcançar e isso pode soar bem estranho - ao menos pra mim soa.

É muito daquela rotina que foi quebrada, por acaso, onde você tem o costume de pegar o ônibus na volta para casa às 20h, sentar ao lado esquerdo, bem na janela, e não se importar com o resto da viagem. Só que aí, por um instante, você se depara com algo diferente. Sou extremamente adepto aos rituais banais da vida, sabe? A organização, o tempo de maturação e a forma com que esses processos levam a um resultado extremamente satisfatório. Em sua plenitude, a delicadeza e a forma com que trabalhamos em algo dedicando nosso tempo, atenção e carinho tendem a nós proporcionar uma felicidade genuína. Há dias que venho tentando achar as palavras certas para falar sobre isso de uma forma menos banal do que estou habituado, mas no final sei que vou acabar caindo em mais algum cliché - risos.

Falando em rituais, vocês já fizeram chá da forma certa que deve ser feita? Pode parecer que nada disso faça sentido, mas isso é assunto pra outro texto.