segunda-feira, 27 de abril de 2015

Tiveram, têm e terão.

Ela tem um caso.
Ele tem um peito vazio.
Ela tem um cachorro.
Ele tem uma guitarra.
Ela tem um gosto peculiar sobre uns bares da cidade cinza.
Ele tem vontade de voar daqui.
Ela tem olhos grandes e bonitos.
Ele tem barba e alguns cabelos brancos.
Ela tem uma lembrança dele ao ouvir uma música sobre amigos e algo mais.
Ele tem um gosto agradável na boca quando se lembra do gosto das orquídeas.
Ela tem a pele branca e macia.
Ele tem saudade do calor dos braços dela.
Ela tem um perfume que o lembra algo bom.
Ele tem lembranças de como ficou hipnotizado pelo perfume adocicado dela.
Ela tem um coração cheio de ambições,  grande o suficiente pra caber o pouco que sobrou dele ali dentro.
Ele tem carinho e afeto por ela e a certeza de que isso nunca vai morrer.
Ela tem o gosto doce da água.
Ele tem a oscilação de temperatura do óleo 

Eles têm, de uma forma diferente, talvez errada, mas têm, dentro deles algo que ninguém jamais poderá mudar. Quer o tempo queira passar, quer as dores queiram doer, quer os outros queiram mudar. Ele têm um ao outro por ontem, por hoje e pelo amanhã.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Janelas abertas.

Tem dias que me perco por ai enquanto caminho pensando em coisas aleatórias que a vida nos dá. Vou longe, tão longe que é estranho não lembrar qual foi a última esquina que dobrei ou por quantas quadras passei até chegar nesse lugar que não conheço. As fachadas são estranhas, as pessoas são estranhas, o cheiro dessa rua é estranho. A sensação de estar sozinho é perturbadora, dói no peito feito um golpe de mão fechada no meio da boca do estomago, me falta o ar e a visão começa a ficar turva quando então você perde o chão. A parte mais estranha é quando nesse relapso de luto você se depara com um rosto familiar, alguém que não via há muito tempo... É tão bom ter quem te guiar quando não se sabe pra onde vai. O chão tornou a aparecer sob meus pé, o ar voltou a encher meus pulmões e tudo que me causava estranheza e uma leve fobia se transformou em algo normal, inofensivo. Honestamente, espero que tenha te encontrado dessa vez pra você ficar pra sempre.

Por um tempo me peguei pensando se tudo estava seguro, se usava roupas, se tranquei a porta de casa. Foi ai que me lembrei que tranquei sim, e sai pela janela.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Carta aberta ao vento.

Sonho com você e com o dia que poderei sonhar ao seu lado, - pra falar a verdade, já faz tanto tempo - sabe? Nem me lembro de como tudo começou, mas já considero o acaso é um velho amigo meu. Não sei dizer como te conheci, nem quantos anos tinha, nem se já tinha uma música pra cantar enquanto pensava em você - acredito também que nunca musiquei algo escrito pra ti. Acho engraçado essa coisa, sabe?

Começou pequena, talvez, e veio crescendo e crescendo, ganhando forma, gosto, cheiro... até que um dia então morreu. Sumiu feito fumaça no vento, caiu feito um castelo de cartas, tipo um doce que estragou. Levou muito tempo, muito tempo mesmo, pra acontecer de novo. Novamente, não me lembro quanto tempo - risos - e nem sei se isso é bom ou ruim, mas me faz bem. Vivi pelas ruas no tempo da sua ausência. Andei por ai, conheci ótimas pessoas, ganhei bons amigos, adquiri novos vícios, guardei boas memórias e então um dia decidi te procurar - dessa vez com vontade de achar... e achei. Por sinal, mandei um abraço para o Acaso nesse dia. Fiquei parado ali, olhando pra você, sem saber exatamente o que fazer. Você mudou tanto, não sei dizer onde, mas continua fazendo meus olhos brilharem. Sabe o que é pensar em alguém com tanto carinho que isso te causa até estranheza? Pois é... Queria te mostrar de alguma forma palpável tudo isso.

Ano passado, passei duas vezes por sua cidade. Longe de casa, num lugar que não sabia nem o nome da avenida principal, minha única vontade foi te ligar pra te dar um "Olá", talvez um "Ei, quer tomar um café comigo?", quem sabe algo como "Vem comigo, estou subindo a serra" - mas no fundo sei que tive medo de te ver andando pela rua e ficar com vontade de não ter mais vontade de voltar pra casa. Já disse que acho isso bem estranho?

E quando me contou que viria morar aqui? Meu coração quase pulou pela boca! Depois me disse que não viria mais... e ele tornou a quase pular pela minha boca novamente - risos. Passado um tempo, disse que viria me visitar, mas maldito fora seu dentista. Entre idas e vindas na minha garganta, a única coisa que posso relatar é que ficou um gosto de algo que me parece doce, mas não teve tempo de ser - sabe?

Quando a gente acha que algo tem tudo pra dar certo, mas não é a hora certa? Nunca te contei, mas não sou bom em decorar nomes de pessoas que acabei de conhecer, nem datas, e também não sei calcular a hora que vou chegar. Mas quando for a hora, me chama por que eu estou esperando faz um tempo.

Vazio.

Ando procurando por algo, algo que não sei o que é e talvez metade disso já não me valha. Ando procurando pelo acaso, pelo encanto casual e eu sei que nem a metade me serviria bem. Encontrei no meio do peito um espaço que me parece estar preenchido com algo, talvez matéria negra - já ouviu falar?

Ando falando por aí, bem alto, praguejando o amor e julgando a saudade. Rindo de quem vem me julgar. Talvez não queiram mais me ver por ai. Ando andando em passos tão largos, tão largos que talvez eu não possa te esperar e eu sei que o jeito deva ser sumir daqui.

Confesso que ando me sentindo estranho, logo eu que jamais falaria mal do amor, que sempre sonhou com o final feliz. Ando me perdendo nos acasos, negando chances onde poderiam dar. Talvez já tenha aceitado o fim onde termino assistindo algum filme triste na televisão enquanto minha irmã e meu cunhado vêm me visitar e meus sobrinhos correm pela casa.

Eu ando vazio no vazio que hábito.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Um café e um pouco dela, pra viagem.

Hoje senti algo um tanto quanto estranho. Confesso que evitei te reencontrar, honestamente. A vida está me guiando por caminhos que não apresentam placas de retorno e venho seguindo nessa estrada por que sei que lá na frente há algo maior a me esperar, mas no fundo não fiz esforços pra parar no acostamento por alguns instantes. Sabe, houve um tempo em que guie por ai buscando encontrá-la pelo caminho. Confesso... Por acaso hoje, em alguns segundos de loucura, decidi olhar pro lado e te vi por lá. Parei, senti e te olhei nos olhos - e poxa vida, que olhos lindos essa garota tem. As pupilas dilatadas pela meia luz, sardas colorindo seu rosto e os cabelos ondulados num tom castanho quase mel - talvez fosse só a iluminação do ambiente. As horas voaram, feito a minha atenção enquanto admirava as histórias cômicas que me contou e a forma como movia os lábios enquanto me falava sobre elas. Olho pra ela e sinto que é aqui que devo me encostar e de ti fazer minha morada... Mas, poxa, somos tão diferentes se nos vermos de perto. Sonho em ter filhos, sabe? Gostaria que pensasse mais sobre isso, afinal, eles seriam lindos se nascessem com teus olhos, tua pele, tuas sardas, teu jeito - já pensou nisso? Enfim... Talvez seja pura loucura ou devaneio, mas hoje senti metade de medo e a outra metade foi pura saudade. Vontade de acordar todos os dias de manhã, te olhar nos olhos e dizer quão feliz você me faz.