terça-feira, 19 de abril de 2016

Vestido.

De surpresa, me dei de frente com aquela foto. Foram anos e anos tentando escondê-la de meus dados olhos.

Lembro do dia que ela foi tirada. Há cerca de dez anos atrás, quando ainda estamos só duas crianças fingindo saber que subíamos o que de fato queríamos para nós. Era simples, honesto, palpável...

Talvez nunca tenhamos sidos bons em nos comunicar, né? Risos. Desde a primeira desavença, meu orgulho se mostrou forte e intransponível, sua raiva algo surreal - hoje entendo. Mas o que me fascina é como aconteceu o decorrer de todo o resto. Havia um carinho, uma saudade, um respeito mútuo. Eu, sempre por aí, dizia a terceiros que não passava de uma bobeira de duas crianças. Mas todo mundo sabe que isso foi uma forma de tentar reprimir algo que, na minha cabeça, era inatingível. Você, que também nunca foi um exemplo, passeava pelas ruas acompanhada, mas bem sei que na verdade sonhava em estar ali comigo - tenho ótimas informantes haha.

Até tentei. Juro que tentei.

Me lembro de quando virou rotina te ver por aí. Foram tempos difíceis. Tinha palpitações, receios e fortes desejos que você mostrou serem algo que jamais viria a acontecer.

Era ruim, mas era bom também. Não vou negar. Mas o que mais me abalou, foi quando descobri que não poderia fazer mais nada. Havia se mudado para um iglú... No meu peito fazia frio feito o que devia fazer fora da sua casa. Então decidi esquecer, reprimi, quase me matei - sim, eu gosto de exageros. Até te escrevi umas músicas que você nunca vai ouvir.

E agora, há mais ou menos dois anos depois disso, descubro que voltou para as terras tropicais.

Te vejo, de manhã, logo quando o sol cerrava meus olhos ainda marejados pelo sono. Foi como ver uma foto, sabe? Aquela foto que temos no fundo da gaveta, já amarelada pelo tempo. Um abraço apertado, duas ou três palavras, sem graça por não entender direito o que deveria fazer - você me pegou de surpresa mesmo - e um adeus... Não para você, continuo te desejando tudo que há de melhor nesse mundo, mas para aqui que eu não sabia direito o que era.

O que um dia chamei de dor, hoje vejo que posso nomear de maldade; o que achava que era amor, acho que tenha sido mesmo e hoje só restou o que poderia se chamar de amizade; e o que talvez um dia vi como rancor, hoje já não passa de saudade... e um carinho que jamais vou poder apagar.

Desbotou, não como um vestido velho que está estragado por ter perdido sua cor, mas porque só passou de seu tempo e hoje está guardado com carinho e saudosismo. Como uma lembrança de um dia que usávamos de nossa inocência para nos vestir.

Com carinho.

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